Por Yasmim Stella Domingues Marcucci*
A etnografia permite estranhar. E por muito tempo o estranhamento era voltado para os outros. Depois, os campos etnográficos se estenderam para a própria sociedade ocidental. Mas agora, o recomendado é ficar em casa. A etnografia também?
Mas de dentro de casa, vemos o mundo lá fora. O acessamos através das redes sociais e veículos de comunicação. Porém podemos acessar a partir do olhar etnográfico?
Desde meu primeiro dia de aula de antropologia 1 tenho ouvido “para fazer campo etnográfico é necessário se distanciar”. Inclusive o tal do estranhamento em lugares que já me eram familiares e rotina naturalizada foi um exercício inacabável durante meus tempos de graduação. Fiz um trabalho de campo extenso por dois anos em escolas de circo em Goiânia, e meus textos sempre ficavam em uma linha tênue entre todo o meu encantamento com a arte circense e meu trabalho de antropologia. O estranhamento de hábitos que eu mesma praticava, e distanciamento da minha própria realidade foi e ainda é um trabalho contínuo (e nem sempre sinuoso) que foi me formando enquanto antropóloga.

Agora estamos todos sentindo na pele políticas de distanciamento social. Nunca caiu tão bem a frase que ouvi de uma professora de sociologia da saúde “nós adoecemos socialmente”, e isto não está ligado diretamente a depressão ou a ansiedade. E sim a ideia de que a doença, por mais que seja biológica, ela traz questões sociais, e esta pandemia gera mil e uma tensões sociais, que são também campos de disputa política. Afinal, o que vejo no momento é o “distanciamento social” sendo uma categoria que está sendo uma disputa de poder árdua, e por cada grupo social tem uma interpretação, e por conseguinte, um comportamento significante frente a esta categoria.
Porém, não quero dizer aqui que o significado de “distanciamento” da etnografia e o que está sendo veiculado em tempos de COVID-19 são os mesmos. Não são iguais. Mas entre um jogo de significados, do distanciar de estranhar e olhar de fora, e distanciar em uma pandemia, é possível refletir.
Arrisco a dizer que a antropologia se reinventa no significado do distanciamento. A priori, Malinowski (1978) precisou ir para ilhas distantes, o distante carrega o signo em questão de espaço e em questão de modos de construção/manutenção da sociedade . Posteriormente, cada vez mais perto da sociedade que os próprios antropólogos pertencem, Magnani (2002) propôs por uma antropologia cujo olhar etnográfico seja de perto e de dentro, no próprio meio urbano ocidental – e isto abriu inúmeras incríveis possibilidades para a etnografia e a antropologia. Aqui, o distanciamento nada tem haver diretamente com espaço (sem ilhas distantes e territórios não habitados pelo homem ocidental), e sim com os marcadores das diferenças que carregam, entrelaçam, produzem diferentes intercâmbios e concepções de construção e manutenção da sociedade.

Agora, em casa – para quem tem o privilégio de ficar em casa. E se fosse possível fazer uma etnografia dentro de casa? O olhar de distanciamento estaria atravessado pelo distanciamento social.
O que estranhamos? Nossos próprios habitus (BOURDIEU, 1983)? Ou o modo como nossos habitus estão sendo transformados e ressignificados?
O nosso consumo (DOUGLAS, ISHERWOOD, 2009)? O “essencial” (no sentido daquilo que nos ajuda a passar os dias) ganha novas formas, as formas de produção e circulação de arte para entretenimento também.
A nossa alimentação? Como estamos tendo acesso aos alimentos e as refeições? Como estamos produzindo refeições? Qual o tempo gastos nelas?
E o mais importante: o nosso campo etnográfico será nossa casa? Ou é possível ampliar e atingir outras casas através de metodologias de questionários aplicados e/ou entrevistas de chamadas de vídeos?
A minha casa, que é atravessada por uma localização específica no meio urbano que dá acesso a distribuição de bens e serviços diferente de quem mora em outra região. O número de pessoas dentro da casa, a presença de moradores que tem grupo de risco, a profissão do morador exige que ele saia para trabalhar ou pode ser adaptado para home office, e como está o nível de rigidez ou flexibilidade da quarentena da região. Esses são alguns dos inúmeros fatores/variáveis que podem alterar a rotina de uma casa, e isto vale o estranhamento.
Se eu observo minha própria rotina, e comparo com a dos meus amigos, aqui surge uma alteridade. Mas isso pode ser considerado etnografia?
É possível fazer uma etnografia em espaços virtuais – que, no momento, é nosso meio mais eficaz de acessar o mundo? Aquelas em que somos uma pessoa, com um perfil e identificação traçado por nós (e legitimado), que convive e tem conversas informais, interação e participação de diversas atividades online?
Do meu instagram eu vejo como as pessoas estão se sentindo; o que elas fazem para ocupar a quarentena; dos seus posicionamentos políticos frente a bagunça que nos encontramos. Porém estou dentro da minha bolha de pessoas que pensam e se posicionam de forma semelhante que me coloco socialmente, com faixas etárias próximas, e com até propagandas e marketings que são tendenciosos e querem atingir o público do qual faço parte.

Mas e no instagram de uma pessoa com faixa etária distante, com posicionamento político contrário e com um círculo social totalmente diferente? São inúmeros marcadores da diferença presentes no tipo de informação, arte, e entretenimento consumidos. Isto é um campo rico para a antropologia pensar nas relações de sociabilidade que produzem e articulam as diferenças, só que em outro espaço não físico.
Também pensar na comensurabilidade (ALMEIDA, 2003) que estes novos lugares ou não-lugares virtuais trazem para pensar na intersecção de conhecimentos e de comportamentos diversos que se cruzam – redes sociais de expressão de minorias e maiorias, isto com certeza produz algum efeito que podem interessar a antropologia pelos novos modos sociais de se apresentarem.
Aqui temos a oportunidade de experimentar a inserção do etnógrafos em espaços não-físicos. Os efeitos disto, apenas saberemos depois. Mas é provável que se abra outro leque para estender a etnografia em outros meios. Já se possuem muitos textos (desde os clássicos) que discutem o que define antropologia, mas o que é inegável é sua flexibilidade em relação ao seu próprio tempo. O interlocutor, o campo, o antropólogo e os métodos etnográficos. Todas estas categorias não são fechadas e acabadas, elas são tensionadas e ressignificadas – e isto é muito bem explorado na Queda do Céu (2015) de Davi Kopenawa e Albert Bruce.
E aqui, faço um paralelo com a frase de Magnani: uma etnografia para dentro e por perto.
* Mestranda em Antropologia Social, pelo PPGAS – UFG.
Referências bibliográficas:
ALMEIDA, Mauro W. B. (2003). Relativismo antropológico e objetividade etnográfica. Campos-Revista de Antropologia, 3, p. 9-29.
BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
DOUGLAS, Mary; ISHERWOOD, Baron. O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009.
KOPENAWA, Davi & ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã Yanomami. São Paulo, Companhia das Letras, 2015.
MAGNANI, José Guilherme – “De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana” in Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.17. n.49, junho de 2002, p. 11-29.
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
As imagens que compõem a ilustração desse artigo são do pintor Theodor Severin Kittelsen (1880-1914).