“Fascismo não se debate, se destrói’’ Fascismo, Antifascismo e Neofascismo em 2020

Por Juliana Antunes*

“O proletariado devolverá seu protesto como achar mais conveniente, contra as organizações fascistas dos bairros e cidades. Deve vigiar suas sedes, seus chefes, […]. Os ‘garçons’ não devem servir nos seus banquetes; os empregados de teatro não devem trabalhar para que eles realizem suas conferências; os ‘chauffeurs’ não devem transportá-los; os gráficos não devem fazer-lhes impressos, impedindo a sua propaganda nos jornais’’ (Liga de Ação Contra o Fascismo, Brasil).

As palavras, sempre que ditas ou transcritas carregam um sentido. Muitos são os sentidos que as mesmas podem carregar ao serem exteriorizadas. De todos esses, as que posto no presente texto são de sentido político. Político, não no eixo de cooptar. Político no viés de arrancar as ideias preconcebidas, de explicar o quê são as nossas lutas, de onde elas partem e porque.

Nos meados de junho de 2020, mais uma vez popularizou-se o termo antifascismo. Entretanto, o uso do termo por vezes é equivocado, intencional ou não intencionalmente. Como entender então a luta antifascista? É ilógico afirmar que a mesma se põe em posição da defesa sádica e cega da democracia liberal, tampouco que ela defenda qualquer rumo à autoridade. 

Buscando, pois, esclarecer ideias e desfazer interpretações errôneas, o presente texto se compromissa a redigir um panorama sobre o antifascismo ao longo dos séculos, como o mesmo se apresenta hoje e porque ele serve a todos nós, que sabemos que as botas que nos pisam são sempre botas [1].

1º passo: entender o que é fascismo 

As eleições presidenciais de 2018 eivaram-se num conflito entre defensores do candidato Jair Bolsonaro (no período, PSL – Partido Social Liberal, hoje, sem partido) e defensores de demais candidatos do espectro progressista, como Fernando Haddad (PT – Partido dos Trabalhadores). 

O cenário alavancou, pois, uma banalização preocupante no que diz respeito ao termo fascista. Isso porque, “da noite para o dia’’ diversos trabalhadores – grande parte do lumpemproletariado – foram acusados de serem “fascistas’’. Simultaneamente, diversos partidos políticos ou centrais sindicais vestiam a camiseta do antifascismo, até então desprezado pelos mesmos. 

Tal cenário aponta, claramente, a necessidade de se esclarecer o que é fascismo antes de se entender o que é antifascismo, ou porque o mesmo não se relaciona com aqueles que o banalizam. Buscando estabelecer uma conceituação mais clara quanto possível, me apoiarei em diferentes conceitos, elaborando posteriormente uma conclusão. As interpretações a serem transcritas serão de Errico Malatesta, João Bernardo, Foucault e Luís Carlos Lopes. A análise a respeito da definição de fascismo ocorrerá em 3 etapas, onde será possível compreender elementos que possibilitaram a ascensão do fascismo de Estado, qual a diferença entre fascismo de Estado e fascismo enquanto ideologia de um movimento social, quais são as diferentes faces do fascismo de Estado e o que são os microfascismos da teoria de Michel Foucault, os quais conversam com a ideia de fascismo enquanto ideologia e, posteriormente, uma conclusão de o que é fascismo.

Errico Malatesta foi um teórico e ativista anarquista, que viveu na Itália do século XIX ao século XX. Vivendo portanto em tal período, e tendo em mente que a ascensão do regime fascista italiano se deu no período entre guerras, inserido a partir de 1918, é evidente que o autor em questão presenciou a execução de tal fato.

Quando se deu tal acontecimento, a partir de ações como a Marcha sobre Roma, em outubro de 1922, Malatesta analisou que

o fascismo venceu porque teve o apoio financeiro da burguesia e o apoio dos vários governos que se serviram dele contra a ameaça do movimento operário. O fascismo venceu porque encontrou uma população esgotada, desiludida e entorpecida por cinquenta anos de propaganda parlamentar. Mas, sobretudo, o fascismo venceu: porque suas violências e seus delitos encontraram certamente o ódio e o espírito de vingança em quem os sofria, mas não suscitaram a reprovação geral, a indignação, o horror moral.(…) E, infelizmente, não pode haver retomada material sem antes haver revolta moral (MALATESTA apud AVELINO, 2013). 

 

O autor compreende, portanto, a ascensão do fascismo como uma consequência das injustiças às quais diversas classes sociais são sucumbidas, bem como a invisibilidade das mesmas por parte dos militantes no contexto em questão. 

O fascismo é concebido por alguns autores enquanto um regime político, por outros como uma ideologia de um movimento social, o movimento fascista. A definição do termo, para Malatesta conversa mais com o sentido de se entender o mesmo enquanto uma ideologia, colocando até que muitos militantes de oposição ao Estado agiam de modo a encaixar-se no fascismo 

Digamos francamente, por mais doloroso que seja constatá-lo. Fascistas também existem fora do partido fascista, existem em todas as classes e em todos os partidos: tem gente de todo o mundo que, não sendo fascistas, inclusive sendo antifascistas, têm a alma fascista, o mesmo desejo de abuso que distingue os fascistas. (MALATESTA, 2020. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/malatesta/1923/08/28.htm)

Um outro ponto cabível a ser destacado, no pensamento de Malatesta, diz respeito à necessidade de uma crítica também ao que diz respeito à democracia. Ele depreende que

Se a ditadura era tirania declarada, a democracia, “é a tirania mascarada, provavelmente mais danosa que uma franca ditadura, porque dá às pessoas a ilusão de estar em liberdade e, portanto, tem a possibilidade de durar mais”.Por isso, não se deve tomar como perspectiva os graus de violência que podem existir entre democracia e ditadura ou a maior ou menor liberdade que cada um desses regimes é capaz de garantir (MALATESTA apud AVELINO, 2013).

Portanto, no cenário de vigência de um regime fascista, a solução não posta-se em substituí-lo pelo “menos pior’’, uma vez que enquanto se houver o local do poder haverá, concomitantemente, a vontade por poder, a qual abre o espaço para restrição das liberdades dos indivíduos.

Outrossim, no período de vigência do fascismo na Itália, bem como foi mencionado, houve apoio de massas de trabalhadores a tal ideologia. Por que isso aconteceu? Por que, ao contrário, não houve uma oposição das massas ao fascismo? João Bernardo, em Labirintos do Fascismo depreende o fascismo enquanto um “revolta na ordem’’. 

a revolta no interior da ordem deveu-se às massas populares. Os horizontes estreitos que confinam cada elemento das massas e o impedem de imaginar outra coisa além da possibilidade de ascensão no interior da hierarquia vigente devem se à fragmentação da classe, com o consequente isolamento recíproco dos seus membros. Nas massas os trabalhadores dispõem apenas da individualidade que lhes foi forjada pelo capitalismo, enquanto na classe cada trabalhador encontra a sua projecção histórica. E nos elos estruturantes da classe, constituídos pelos mecanismos de solidariedade, os trabalhadores encontram uma razão de ser oposta à do capitalismo (BERNARDO, 2015. p. 18). 

Urge ressaltar, entretanto, que o objetivo pautado pelos trabalhadores não se encaminhava nos trilhos de ascender um regime totalitário, mas de 

simplesmente ascender no interior das estruturas existentes, desalojar os antigos patrões e tornar-se ele próprio patrão ou, se não o conseguisse, pelo menos ter junto de outros como ele, nas milícias de arruaceiros, a ilusão do poder, reduzido à brutalidade da força física. Um desejo de ascensão que não punha em causa o fundamento das estruturas prevalecentes era uma revolta dentro da ordem, e esta conjugação entre a estreiteza de horizontes e os sonhos de grandeza explica a miséria grandiloquente da cultura fascista, as roupagens megalómanas e os acessórios de teatro com que se adornaram os lugares-comuns mais banais (BERNARDO, 2015. p. 19). 

Ou seja, tal como no caso narrado por Marx em 18 de Brumário de Louis Bonaparte, na circunstância de popularização do fascismo, havia também um abandono às classes mais oprimidas socialmente, o que acarretou nas mesmas um desejo pela mudança. Porém, a ausência de consciência de coletividade e, concomitantemente, solidariedade de classe culminou, no caso francês, no apoio de tais indivíduos ao golpe de Louis Bonaparte, e no caso italiano, no apoio aos fascistas.

Prosseguindo a discussão, um outro ponto a ser levantado no que diz respeito ao fascismo é, se o mesmo pode ser invocado enquanto regime político ou ideologia de movimento social, concomitantemente ele manifestar-se-á de diversas maneiras, em diversas faces. Situa-se, pois, aqui a análise de Lopes (2005), a ideologia fascista torna-se influente em diversos regimes na extensão do século XX, como o salazarismo português, o franquismo espanhol, o nazismo alemão, o fascismo italiano, ou o integralismo brasileiro.

Para além disso, uma outra interpretação no que concerne a manifestação das ideias fascistas é a de Foucault (1993), o qual compreende a disseminação dos microfascismos, ou seja, várias práticas e discursos cotidianos onde invoca-se os mesmos princípios do regime fascista, de restrição às liberdades e culto à morte. Há, nos microfascismos o desejo por mandar, por coagir e por violentar, tal como é pregado pelo representante do governo fascista, porém em pequenas esferas da sociedade. 

A partir da exposição de todos esses autores, qual é a conclusão possível de ser tirada no que diz respeito à definição de fascismo?

O fascismo, enquanto um modelo político, vigorou em diversos pontos do mundo ao decorrer do século XX. No decorrer da vida escolar compreendemos diversos dos pontos que circundam tal modelo, como a propaganda de exaltação ao governo, unida às propagandas de distorção de fatos contemporâneos a tal período, a perseguição às minorias, o nacionalismo exacerbado, censura à imprensa e restrições às liberdades. Essas características concretizaram-se em diferentes governos, como foi posto por Lopes (2005). O apoio à subida de tais regimes ao poder, dado pelas massas, reflete as consequências do capitalismo doravante as diversas falhas do modelo democrático burguês. O Estado, bem como sabemos, independente do espectro ideológico onde queira se centrar, não chega às mesmas. Diversos são os indivíduos abandonados e sem acesso a dignidades básicas, como água potável em sua residência. A sensação constante de abandono, doravante o surgimento de novas figuras que prometiam findar as estruturas de poder vigentes, aliada à falta de solidariedade de classe propôs o apoio a tais personalidades, contrário ao questionamento a todas as estruturas de poder. 

É, pois, impossível pensar em fascismo sem pensar em capitalismo, já que o primeiro compõe uma das consequências do segundo. Quando se pensa no fascismo enquanto uma ideologia, a qual guiará diversos grupos denominados neofascistas hoje (mais a frente compreenderemos o significado de tal termo) associa-se a um abraço às ideologias fascistas, que possibilitarão a união de indivíduos com interesses comuns, na síntese de movimentos sociais fundamentalizados em tais ideais – como é o caso dos skinheads, a título de exemplo.  

Antifascismo na história

Tendo compreendido os sentidos e significados que circundam o termo fascismo é possível entender o que viria a ser o antifascismo

A melhor maneira, entretanto, de entender o que vem a ser antifascismo é analisando episódios na história onde a existência e atuação de grupos antifascistas – ainda que, em alguns casos, os mesmos não se denominassem dentro de tal termo – foram substanciais.

É de conhecimento geral que, no pós-Primeira Guerra Mundial, foi estabelecido à Alemanha o pagamento de indenizações exacerbantes, através do Tratado de Versalhes. Tal fator, aliado à crise econômica estendida pelo país, foi estopim para a difusão de ideologias atreladas ao fascismo. Posteriormente, em 1934, dá-se a nomeação de Adolf Hitler como chanceler alemão, dando pois iniciada a ascensão do fascismo de Estado germânico.

Um ano antes de tal nomeação, em 1933, como foi analisado por Gareth Dale, 

Uma corajosa minoria, incluindo cerca de 150 mil comunistas, participou da resistência ilegal. Camadas mais largas [de trabalhadores] evitaram o perigo, mas foram capazes de manter os valores e memórias do movimento operário vivos em seus grupos de amigos, locais de trabalho e conjuntos habitacionais (DALE apud AMENI, 2018. Disponível em: https://autonomialiteraria.com.br/a-historia-perdida-dos-antifas-o-popular-movimento-antifascista/).

A resistência ilegal à qual Dale se refere trata-se de ações de resistência contra os ideais fascistas que se estendiam no país. Essas ações aconteciam dentro de comitês, os “Antifaschistische Ausschüsse’’, ou “Antifaschistische Aktion’’. O termo e os demais lemas adotados por essa frente, onde militavam anarquistas e comunistas, é datado de 1932. 

As ações de grupos antifascistas foram de grande sucesso em diversas partes da Alemanha. A título de exemplo, 

A antifa de Braunschweig, imprimiu um programa de doze pontos, exigindo, entre outros, a remoção dos nazistas de todos os órgãos administrativos e sua substituição imediata por “antifascistas competentes”, liquidação de ativos nazistas para prover vítimas de guerra, leis de emergência para processar fascistas locais e o  restabelecimento do serviço público de saúde (AMENI, 2018. Disponível em: https://autonomialiteraria.com.br/a-historia-perdida-dos-antifas-o-popular-movimento-antifascista/). 

As ações antifascistas no território alemão, entretanto, terão um certo decaimento a partir de 1945, quando a caça aos opositores ao regime hitleriano se fortalecerá, de modo a causar colapsos no movimento socialista em geral. As mesmas permanecerão ofuscadas por cerca de 40 anos, reerguendo-se contra os grupos de extrema-direita que darão as caras na Alemanha dos anos 90.

Outro grande exemplo histórico de resistência ao fascismo deu-se por meio da luta contra o regime franquista espanhol, em meados dos anos 30. Em tal circunstância, após o estabelecimento da ditadura de Francisco Franco, que perduraria de maneira sangrenta por quase 40 anos.

A Guerra de Espanha (1936-39) foi a primeira das guerras que o fascismo desencadeou e que mobilizou paixões políticas em todo o mundo, atraindo milhares de voluntários que perceberam que em Espanha se decidia a sorte do fascismo. Entre os 35.000 voluntários das Brigadas Internacionais (BI) contavam-se sobretudo franceses, imigrantes polacos e italianos em França, canadianos e norte-americanos, a que se juntaram muitos imigrantes da Europa Oriental na América do Norte, refugiados alemães e judeus, militantes de esquerda exilados um pouco por todo mundo, oriundos de um total de 53 países. Todos eles acorreram generosamente a Espanha, desafiando todas as barreiras e obstáculos que, em nome da política de não intervenção, haviam barrado por fora as fronteiras espanholas, procurando isolar a República (LOFF, 2020. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/124712/2/370206.pdf).

 

A resistência ao fascismo espanhol deu-se, em sua maioria, pelos anarcossindicalistas da Confederação Nacional do Trabalho (CNT), fundada em 1910, embora houvessem militantes da União Geral dos Trabalhadores (UGT) nos levantes contra o fascismo, antes do governo incumbido pela Frente Popular.

Entretanto, a insatisfação com as reformas encabeçadas pelo governo social democrata, facilitou um golpe franquista. Diversos trabalhadores, vendo as claras repressões e ameaças, ademais sob ajuda da CNT, organizavam comitês antifascistas. Muitos foram, no período, os conflitos armados, colocando milícias do governo e o próprio Estado contra trabalhadores e antifascistas. É perspicaz recordar, além disso, que na guerra civil que se estendeu no território espanhol, abriu-se espaço para que o Estado testasse, contra o povo, diversas armas que seriam utilizadas pelos demais regimes fascistas no desenrolar dos conflitos da II Guerra Mundial. Outrossim, ainda que em no solo espanhol muitos tenham sido os antifascistas mortos pelo fascismo de Francisco Franco, a importância dos mesmos para fomentar a revolta popular contra o fascismo de Estado em outros pontos do globo é inegável. 

Outro movimento de resistência contra o fascismo de Estado apresenta-se em solo italiano, contra o regime estabelecido por Benito Mussolini. A resistência italiana, ou partigianos foram um movimento armado que se opunha ao regime fascista e à ocupação nazista na Itália. 

Como movimento armado, baseado em uma estratégia de guerrilhas, surge quando a Itália é invadida pela Alemanha, após o estabelecimento do Armistício de Cassibile (8 de setembro de 1943, entre a Itália e os Aliados. Muitos, entretanto, consideram que a Resistência Italiana já existisse desde 1922, quando tem início a ascensão do fascismo. Seus membros eram conhecidos como partigiani (RESISTÊNCIA ITALIANA, 2014. Disponível em: https://www.anarquista.net/resistencia-italiana/). 

Os partigianis, além de contarem com adesão de milhares de indivíduos em seu grupo, em 1945, capturaram Mussolini que buscava fugir para a Suíça, em virtude de dificuldades para manter seu governo. O ditador foi julgado, junto de esposa e escolta, em praça pública, tendo posteriormente sido fuzilado 

Uma multidão chutou, baleou, cuspiu e urinou nos corpos, que depois foram perdurados de cabeça para baixo em uma viga de metal. Pendurados, os corpos passaram por horas de humilhação e profanação, como resposta dada pela população italiana (do Norte, no caso) ao legado de perseguições, assassinatos, derrotas e caos econômico de Mussolini (Pendurado em um posto de gasolina: há 75 anos, o cadáver de Benito Mussolini era exposto, 2020. Disponível em: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-morte-de-benito-mussolini-pendurado.phtml).

No cenário brasileiro, ascendia-se o integralismo, relacionado ao fascismo enquanto ideologia, a partir dos anos 30.

O integralismo tinha um pouco de fascismo italiano, um pouco de nazismo alemão, com um tempero português e brasileiro, visava servir a Deus, ao Papa e levar ao poder uns poucos egocêntricos capazes de transformar o Brasil num vasto campo de concentração (RODRIGUES, 2006). 

A resistência brasileira contra tais ideologias manifestou-se por meio de comitês, como a Liga de Ação Antifascista, que articulava ações em diferentes pontos do Brasil, ações da Federação Operária Brasileira – no recorte paulista – e, sobretudo, pelas mãos de diversos trabalhadores brasílicos, os quais, através do auxílio das organizações anteriormente mencionadas, praticavam ações de enfrentamento às ideologias fascistas e, simultaneamente, se organizavam na luta por direitos trabalhistas – vide “Uni

ão dos Artífices em Calçados (Filiado à Federação Operária de São Paulo)’’ (RODRIGUES, 2006).

Como o fascismo se mostra hoje? – a questão do neofascismo / neonazismo

Analisando a situação do fascismo hoje, sobretudo no que diz respeito ao cenário brasileiro, não há a presença de um fascismo enquanto fascismo de Estado; todavia, manifestam-se no país a presença de grupos aderentes ao movimentos fascista, tal como “os carecas do subúrbio, os carecas do ABC, o movimento White Power, os carecas do Brasil, a Ação Integralista Brasileira, e o Partido Nacional Revolucionário Brasileiro, ou Partido Nacional Socialista Brasileiro’’ (Lopes, 2016. p. 52) [2].

O aumento da influência desses grupos acontecerá a partir de 2015. No mesmo período, outrossim, acontecerá, no sul do Brasil, a Dezembrada, – evento com shows de bandas famosas no movimento skinhead -. Na realização de 2015, entretanto, ocorreria simultaneamente o Congresso da Fundação da Frente Nacionalista, além do cunho de diversas simbologias que referenciassem à Ação Integralista. (NETO, 2016)

Muitos autores atribuem o crescimento dos grupos neofascistas no período à instabilidade política vigente. Entretanto, um dos pontos que mais possibilitou sua organização foi o avanço tecnológico aliado à supremacia das redes 

sociais, que lhes possibilita troca de informações, organização de ações, etc. Numa rápida pesquisa no facebook , inclusive, é possível encontrar diversos grupos fechados que reúnem membros e apoiadores a tais movimentos (Anexo 01).

As ideias disseminadas entre os grupos neofascistas caracterizam-se por

apologia à intolerância, […] ideais ultranacionalistas, racistas, xenófobos e discriminatórios e advogam o uso da violência. Além da perseguição de negros, homossexuais, judeus e dependentes químicos, estes grupos também possuem como alvo os migrantes nordestinos […] 

(LOPES, 2016. p. 52).

Suas táticas manifestam-se, tanto pela disseminação de ameaças através de lambes em locais públicos (Anexos 02, 03 e 04) quanto por assassin

atos e agressões físicas. A título de exemplo, pode-se citar o caso decorrido em Minas Gerais (2013) onde um simpatizante neonazista enforcou um morador de rua usando uma corrente [3], ou os diversos outros casos narrados de atentado à vida de moradores de rua por integrantes do grupo, disponíveis nos anais do 7º Encontro Anual da ANDHEP – Direitos Humanos, Democracia e Diversidade (2016).

A questão do Bolsonarismo e dos Bolsonaristas

Nas eleições presidenciais de 2018, chegaram ao segundo turno o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, e o candidato até então do Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro. Com mais de 57% dos votos houve a vitória de Jair Bolsonaro, ex-militar do exército brasileiro e ex-deputado por quase 30 anos. 

As falas e ações de Jair Bolsonaro sempre foram marcadas pela vangloriação da religião (cristã), o nacionalismo e o culto à morte – como na piada contra os mortos na Guerrilha do Araguaia, conflito contra a ditadura militar brasileira (Anexo 05). Seu plano de governo divulgado nas eleições de 2018, ademais, invocava os mesmos princípios, além do lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’’ – bem semelhante ao “Deus, Pátria e Família’’, dos Integralistas. 

Esse texto é escrito em 2020, enquanto Bolsonaro alcança 1 ano e 5 mese de governo e enquanto o mundo atravessa uma pandemia. Muitas foram as recomendações dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como medidas para enfrentamento da COVID-19, geralmente pautadas em evitar-se aglomerações, lavar as mãos constantemente, e utilizar máscaras que protegem nariz e boca. 

Havendo pois, a necessidade de se evitar aglomerações, há simultaneamente a necessidade de se suspender atividades nos trabalhos. O Brasil, por outro lado, segundo dados extraídos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) possui aproximadamente 40 milhões de trabalhadores informais, urgindo a necessi

dade de auxílio emergencial a tais trabalhadores, que deveriam suspender suas atividades. Demorou-se muito para que o governo Bolsonaro cedesse tal auxílio. Mas, ainda que com o pagamento do mesmo (no valor de R$ 600,00), o presidente em exercício fortalecia campanhas de reabertura de estabelecimento e retomada de atividades. Há quem ponha tal ato no viés de negacionismo científico. Como, entretanto, crêr que o incumbente o faça em tal eixo enquanto é evidente os grupos tratados pelo mesmo enquanto indiferentes? As propagandas contra o distanciamento social encabeçadas por Jair Bolsonaro eivam-se na ideologia eugenista, tal como pôs o médico Arnaldo Lichtenstein

Não é um negacionismo da ciência, é uma linha de raciocínio muito diferente e  cruel. Sabe-se que a epidemia vai passar quando 50% a 70% das pessoas estiverem imunizadas, ou com vacina, ou pegar a doença. Quando se pega isso o vírus arrefece. São 140, 120 milhões de pessoas […] Com isso, o que vai acontecer, quando as pessoas não defendem o isolamento? Não se fecha comércio, a economia não para, o governo não precisa colocar dinheiro na economia, as pessoas que vão morrer muitas são os idosos, aí tem a fala de ‘aí ia morrer mesmo’ ou as pessoas que já tem doença. E vão ficar os jovens e atletas. Então se a gente pegar pedaços da fala tem uma lógica intensa. Isso chama eugenia, lembre-se de que sistema político mundial usava isso […] Então, quando você fala que ‘morram os vulneráveis para a gente ter uma geração saudável’, pode ser que esteja permeando essa história de ‘vamos acabar logo com essa tortura, não vamos ter o derretimento da economia’. É uma coisa muito mais perversa do que simplesmente não acreditar na ciência, é um outro tipo de teoria que pode ser muito pior do que isso (LICHTENSTEIN, 2020. Disponível em: https://youtu.be/TDzte). 

Além disso, mais de uma vez, Bolsonaro fez alusão a figuras fascistas, como Benito Mussolini, ou ao coronel Carlos Brilhante Ustra, responsável pela morte de ao menos 50 pessoas no decorrer da ditadura militar. 

No que diz respeito aos seus apoiadores, dentro do contexto eleitoral somaram-se diversos indivíduos de classes sociais oprimidas e abandonadas pelos governos anteriores. No interior de tal situação, acreditavam estar, na mudança de governo, de face no cargo presidencial, a solução contra as botas que lhes pisavam.

Além desse grupo, Kalil (2018) reuniu a partir de uma etnografia os demais componentes que sustentam o governo Bolsonaro, sendo, pois, diversas imagens de classes sociais privilegiadas e que desejavam, a partir do novo governo, uma maior segurança ao liberalismo econômico, atrelado ao ódio a outros ideais. 

Outro grupo que marcou apoio ao governo Bolsonaro, em 2020, foi o chamado “300 do Brasil’’, que se denomina uma “militância de direita’’ armada, pró-governo e contra o Supremo Tribunal Federal. Em uma de suas manifestações, ademais, datada em 31 de maio, haviam símbolos de alusão ao fascismo e a grupos supremacistas brancos. 

Dada tal descrição, surge a dúvida: é possível atrelar o governo Bolsonaro ou seus apoiadores ao fascismo?

Já compreendemos as diferenças acerca de fascismo de Estado e fascismo enquanto ideologia. O governo Bolsonaro não se associa ao fascismo de Estado, há, mais propriamente, a defesa de interesses neoliberais, além da manifestação das próprias falhas da democracia representativa, democracia burguesa, interessada em manter os conflitos de classe em prol da burguesia. 

Bolsonaro, ou seus apoiadores, podem estar mais atrelados ao fascismo enquanto ideologia, ainda que muitos não componham tal grupo. Há, aqui, aquilo de Foucault postava enquanto sendo os “microfascismos’’, já definidos no presente texto. Entretanto, não se pode negar a postura eugenista de Bolsonaro no que concerne o tratamento à pandemia da COVID-19. Foi explicitado pelo mesmo, em discursos ou entrevistas, a indiferença pelas mortes acarretadas pelo vírus 

E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre […] Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as  famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas (BOLSONARO, 2020. Disponível em: (https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml). 

Como prosseguir? Ao quê serve a luta antifascista?

No Manual Antifascista, Mark Bray põe, enquanto modo de determinar o que vem a ser o antifascismo, o mesmo como manifestado em diferentes grupos, opositores às políticas autoritaristas, ou aos grupos racistas. Os grupos antifascistas são plurais, podendo ser, pois, de tendência mais pendente ao marxismo ou ao anarquismo (BRAY, 2017).

Entendemos, nesse texto, as diferenciações no que diz respeito ao fascismo de Estado ou ao fascismo enquanto ideologia.Entendemos a importância dos levantes antifascistas no desenrolar histórico, seja no solo europeu, seja no solo brasileiro. Entendemos que os horizontes da luta antifascista não se postam na defesa da democracia representativa, mas no rompimento com todas as estruturas que nos sufocam cotidianamente. Bem como pôs Malatesta, e é perspicaz retomar, enquanto houver a estrutura de poder, haverá a vontade por poder, que abrirá espaço para a reascensão do fascismo. 

Sendo, pois, o poder a porta de entrada para o fascismo de Estado, torna-se inconcebível a idealização dos “partidos antifascistas’’. Os sindicatos, sendo, pois, responsáveis pelo amortecimento constante do conflito de classes, são inconcebíveis em forjarem a máscara do antifascismo. A polícia, sendo, pois, braço armado para manutenção do Estado e exploração dos trabalhadores é inconcebível a vestir-se de “antifascista’’. 

O sentido de nossas lutas, no antifascismo, é o de questionar, é o de opor-se e derrotar estruturas de poder que nos mate, encarcere e torture. Não queremos trocar de senhores, sabemos que até o mais doce dos políticos pode ser o “lobo em pele de cordeiro’’. 

Cabe aos antifascistas, ademais, se organizarem na busca de táticas que levem a fomentar a solidariedade de classe, elemento-chave que poderia evitar a subida de governos fascistas no século XX. 

Ao antifascismo cabe, também, derrotar a ideologia fascista. Lutar, cotidianamente, contra os grupos que erguem-se compartilhando de ideais atrelados ao nazismo, fascismo, ou integralismo. Que perseguem, agridem e matam. Não podemos apenas contemplar essas situações sem nos opormos a elas, quando isso é feito, há consentimento por aquele que não se move, ainda que tal consentimento seja velado. Por fim, recobrando-se o que foi dito por Durruti, na situação de luta contra o franquismo espanhol: quando se trata de fascismo, não cabe a nós debatê-lo. Cabe a nós derrotá-lo.

 

*Estudante do Bacharelado em Ciências Sociais, pela Universidade Federal de Goiás – UFG. Coordenadora da pasta de Assuntos Acadêmicos, do Centro Acadêmico Livre de Ciências Sociais Florestan Fernandes – CACISO. Link do lattes: http://lattes.cnpq.br/2248586168124823  

Notas

[1] “Melhores ou piores, é a mesma coisa. A bota que nos pisa é sempre uma bota. Já compreendereis o que quero dizer: Não mudar de senhores, mas não ter nenhum” Bertold Brecht 

[2] É necessário, entretanto, ao se referir aos grupos skinheads ressaltar que os mesmos, a priori, não possuíam ligação com as ideologias neofascistas. Seu surgimento é influenciado por tribos jamaicanas, além de grupos operários ingleses. As influências nazistas passarão a se manifestar por volta dos anos 60, no solo inglês com o surgimento do National Front (partido inglês nacionalista de extrema direita). Paralelo a isso, surgirão grupos skinheads de oposição às influências fascistas no movimento, como os S.H.A.R.P (skinheads against racial prejudice), que se postam contra práticas de racismo, ou os RASH (Red and Anarchist Skin Heads) que agrupa skinheads, comunistas, anarquistas, socialistas e antifascistas, que se unem contra práticas fascistas. (As origens do movimento skinhead, 2007. Disponível em: (https://www.esquerda.net/dossier/origens-do-movimento-skinhead/17377)

[3] “Ministério Público avalia denúncia da agressão de simpatizante neonazista em BH” https://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/04/ministerio-publico-avalia-denuncia-da-agressao-de-simpatizante-neonazista-em (Acesso em Junho de 2020)

Referências

AMENI, Caue. A história perdida dos antifas, o popular movimento antifascista. 2018. in: https://autonomialiteraria.com.br/a-historia-perdida-dos-antifas-o-popular-movimento-antifascista/ . Acesso em Junho de 2020

AS ORIGENS DO MOVIMENTO SKINHEAD. 2007. in: https://www.esquerda.net/dossier/origens-do-movimento-skinhead/17377 . Acesso em Junho de 2020. 

AVELINO, Nildo. Errico Malatesta e o fascismo. in: Projeto História, vol. 47, 2013

BERNARDO, João. Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta. Edições Afrontamento, 2015.

BOLSONARO, Jair. “E daí?’’ Entrevista sobre as mortes por COVID-19 . 2020. in: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml . Acesso em Junho de 2020

BRAY, Mark. Antifa: o manual antifascista. Autonomia Literária, 2017. 

FOUCAULT, Michel.  O Anti-Édipo: uma Introdução à Vida Não Fascista. in: DELEUZE & GUATTARI. O anti-Édipo. Capitalismo e esquizofrenia, 1993.

KALIL, Isabela. Quem são e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro. 2018. in: https://isabelakalil.files.wordpress.com/2019/08/relatc3b3rio-para-site-fespsp.pdf . Acesso em Junho de 2020. 

LICHTENSTEIN, Arnaldo. Eugenia, entrevista ao Jornal da Cultura. 2020. in: https://youtu.be/TDzte . Acesso em Junho de 2020.

LOFF, Manuel. A Guerra de Espanha (1936-39): fascismo e antifascismo 80 anos depois. 2020. in: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/124712/2/370206.pdf . Acesso em Junho de 2020

LOPES, Luís Carlos. As várias faces do fascismo. 2005.  in: https://www.anamatra.org.br/artigos/760-as-v-rias-faces-do-fascismo-06675724635530007 . Acesso em Junho de 2020.

LOPES, Wallace Alan Blois. Análise de crescimento de grupos neonazistas no Brasil. Monografia (graduação). Universidade Federal do Maranhão. 2016

MALATESTA, Errico. Porque o fascismo vence. 2020 in: https://www.marxists.org/portugues/malatesta/1923/08/28.htm . Acesso em Junho de 2020

MELO, Tomás Henrique de Azevedo Gomes. Desafios da impunidade: violação aos direitos humanos da população em situação de rua em Curitiba – PR. in: Anais do 7° Encontro Anual da ANDHEP – Direitos Humanos, Democracia e Diversidade. 2012

NETO, Odilon Caldeira. Frente Nacionalista, neofascismo e “novas direitas’’ no Brasil. in: Revista Discente do Programa de Pós- Graduação em História. vol. 2, n. 4, 2016.

PENDURADO EM UM POSTO DE GASOLINA: há 75 anos o cadáver de mussolini era exposto. 2020. in: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-morte-de-benito-mussolini-pendurado.phtml . Acesso em Junho de 2020.

RESISTÊNCIA ITALIANA. 2014. in: https://www.anarquista.net/resistencia-italiana/ . Acesso em Junho de 2020.  

RODRIGUES, Edgar. Documentos sobre fascismo e Antifascismo no Brasil. Arquivo de História Social, 2006.

RODRIGUES, Leo. Ministério Público avalia denúncia da agressão de simpatizante neonazista em BH. 2013. in: https://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/04/ministerio-publico-avalia-denuncia-da-agressao-de-simpatizante-neonazista-em . Acesso em Junho de 2020.

Anexos

Anexo 01: Alguns grupos integralistas encontrados em pesquisa rápida no Facebook

Anexo 02, 03 e 04: lambes de grupos neofascistas encontrados nas ruas brasileiras 

Anexo 05: Bolsonaro satiriza a busca pelas ossadas dos mortos na Guerrilha do Araguaia, 2005

 

As imagens que compõem a ilustração desse artigo são da pintora Käthe Kollwitz (1867 – 1945)